Fundamentos

Risco, segurança e prevenção de acidentes

A montanha é um um terreno de jogo imenso e multifacetado. Nela, podemos dar um simples passeio por vales e bosques ou ascender a um imponente e solitário cume através de uma comprometida via de rocha, neve e gelo. Apesar de já não encerrarem o aliciante do desconhecido (desde que o homem pôs satélites em órbita já só nos resta o fundo do mar!)  conservam intactos todos os seus perigos.

Adentrar-se numa montanha é ultrapassar, em maior ou menor medida, o limiar da civilização. Sinceramente espero que continue assim. Não me apeteceria ver um hotel no meio do árctico e, de forma análoga, dispenso um bar no “glaciar do Aneto”. Pois, num refúgio de montanha não há lampreia à bordalesa para jantar…

Ultrapassar esse limiar carece do conhecimento de regras de segurança, de técnicas e de condições físicas e psicológicas que mantenham o risco numa margem aceitável. Sim, uma margem. Em montanha, assim como na vida, não existe risco zero.

Quando carecemos destas condições e, mesmo assim, por fanfarronice, temeridade, inconsciência ou falta de senso comum, não voltamos para trás, podemos correr riscos não desejados e vermo-nos, subitamente, imersos numa situação terrivelmente problemática.

“O senso comum é o menos comum dos sensos!” – Autor desconhecido

Não se trata de ter medo. Trata-se de ter respeito. As montanhas não são “terríveis” com ninguém, são honestas, sinceras e imparciais com todos nós… sem excepção.

Praticar actividades ou desportos em zonas de ambiente natural não civilizadas como as montanhas tem associada a possibilidade de ocorrerem danos à nossa integridade física. Essa possibilidade chama-se risco.  No entanto, se a margem que manejamos se estreita consideravelmente ou se anula, então estamos em perigo. Do perigo ao acidente é um passo.

Ajudar a evitar percorrer toda a cadeia de eventos que leva desde a assunção dos riscos até ao acidente é o objectivo dos artigos desta secção.

Tradicionalmente, e em função da sua natureza, estes riscos foram divididos em duas categorias: subjectivos e objectivos.

Risco subjectivos – são riscos altamente previsíveis e consequentemente evitáveis. Dependem do factor técnico da actividade em questão e da atitude do praticante. É possível neutralizá-los ou limitá-los muito tomando uma série de medidas que estão a nosso alcance antes e durante a actividade. A possibilidade de acidente, a partir destes riscos, deveria ser remota mas não é impossível.  Exemplos: condição física; planificação da actividade; equipamento; experiência; nível de conhecimento; autocontrolo; capacidade de liderança; …

Riscos objectivos – nesta categoria agrupamos aqueles riscos que são difíceis de prever e que consequentemente escapam ao nosso controlo.  Na natureza ocorrem inúmeros fenómenos de carácter imponderável e/ou de  magnitudes colossais: tempestades, avalanches, queda de pedras, roturas de lages ou pontes de neve, inundações,…

É necessário assumir que existem riscos para a nossa integridade física. Que uma situação de risco possa degenerar numa situação de perigo iminente, depende, em certa medida, do nosso grau de controlo e de aceitação dessa situação. Trata-se de uma responsabilidade não apenas pessoal mas essencialmente partilhada com as pessoas que nos acompanham. Apesar do eventual “dinamizador”, num grupo cujos integrantes sejam todos maiores de idade e não se estabeleceu nenhuma relação comercial entre o primeiro e o resto,  todos terão de assumir as suas responsabilidades à frente do juiz  no caso de um hipotético acidente.

Aprender. Aprender sempre. Ter vontade de aprender, aceitar novos ensinamentos e correcções. Leiam tudo o que puderem, analisem as vossas actividades, procurem eventuais erros, encontrem alternativas. Avaliem. Avaliem muito e sejam honestos. Se o não forem, mais tarde ou mais cedo, ELA será por vocês…

Frequentem cursos de formação. Mesmo que já tenham “muitos anos ” de montanha. Há sempre coisas novas, interessantes e úteis. Além disso é divertido.

Ignorância. Este é o primeiro elo da cadeia de eventos.

Aproveito para vos sugerir um livro:

Seguridad y Riesgo – Análisis y prevención de accidentes de escalada, de Pit Schubert,  Ediciones Desnivel

Apesar do título, o autor, uma autoridade mundial na análise e prevenção de risco,  retrata inúmeros acidentes ocorridos nos Alpes e na Alemanha no âmbito do montanhismo em geral e da escalada em particular. Está em espanhol e não sei se existe já uma versão em português. Este livro é um must have para qualquer montanhista e ou escalador responsável.

O que acham sobre este assunto? Já estiveram em situações comprometidas lá em cima? Partilhem a vossa experiência.

Boas aventuras e até à próxima.