Técnica e Material

Como vestir-se em montanha: teoria da cebola

O corpo humano demonstra uma capacidade de adaptação notável… mas não é ilimitada. Os factores ambientais, especialmente os relativos ao clima, são determinantes no funcionamento do nosso organismo.
A temperatura, a humidade e a altitude condicionam de forma decisiva a realização das actividades ao ar livre em geral e da montanha em particular. Os factores externos conjugam-se com varáveis internas (grau de transpiração ou o nível de intensidade física) e afectam de forma decisiva o nosso rendimento, comodidade e segurança na montanha.

vestir-se em montanha

Preparados para tudo…

Proteger o nosso corpo “dos elementos” é fundamental. É um erro pensar que o faremos através da utilização de muita roupa. Mais, um dos principais desafios com que se depara um montanheiro, excursionista ou alpinista é precisamente saber regular convenientemente a sua temperatura corporal. Uma temperatura demasiado elevada, implica uma maior transpiração (perda de fluidos) e menor rendimento muscular; temperaturas demasiado baixas implicam, maiores gastos energéticos por parte do corpo, menor disponibilidade física e mental, baixa concentração e, em última análise, hipotermia e por vezes, a morte.

 

 

cebola roxa

Disposição em camadas… estratégia a imitar!

Um tecido perfeito seria impermeável, transpirável e teria uma capacidade isolamento térmico adaptativa. Ora, tal tecido ainda não existe. Como solução, no montanhismo/alpinismo adopta-se o sistema de múltiplas camadas, conhecido carinhosamente como o sistema da cebola (o frio extremo das expedições polares obriga a uma abordagem algo diferente baseada no conceito de “barreira de vapor”).
O sistema consiste na utilização de três camadas (normalmente) de roupa de natureza e função diferentes.

 

vestir-se em montanha

Primeira camada:

vestir-se em montanha

a segunda pele!

Assim, a primeira camada, que é a que está em contacto com a pele, tem como principal função mate-la seca. É composta com tecidos de baixa condutividade térmica, constituindo-se uma primeira barreira às perdas de calor e ajudam a evacuar o suor. Secam com grande rapidez pois não absorvem água, até com o próprio “calor” corporal. Mesmo molhadas oferecem excelente isolamento térmico. Isto exclui, como já vimos noutro artigo, o algodão. São de espessura variável, dependendo do clima que se vai enfrentar ou do nosso grau de sensibilidade ao frio. São feitas de poliéster ou polipropileno, usam-se mais ou menos ajustadas e às vezes fazem lembrar um pijama. É preferível compra-las em duas peças: sweat-shirt e calças.
A camada intermédia ou segunda camada é para isolamento térmico. A sua missão é reter e manter uma camada de ar aquecido ao redor da pele. Por vezes, esta camada pode ser, ela própria, constituída por várias camadas de espessuras diferentes, em função das condições que se apresentarem.

vestir-se em montanha

Camada intermédia:

o forro polar!

o forro polar!

 

 

 

 

 

 

 

A camisola de lã, muito comum antigamente, está a ser progressivamente substituída pelo fleece ou forro polar. Este é um tecido de poliéster, não absorve água, seca rapidamente, é altamente resistente e a sua capacidade de isolamento é maior comparativamente à lã (para o mesmo peso).

Esta camada não é impermeável nem à água nem ao vento (os forros “windqualquercoisa, XPTO, YZWZ, Hidroqualquercoisa” não são completamente impermeáveis ao vento e muito menos à água) e destinam-se unicamente a isolamento térmico. A oferta de sweats, casacos, calças ou coletes é imensa e para todos os gostos e carteiras (pessoalmente prefiro os casacos pois com eles é mais fácil ventilar em caso de sobreaquecimento).

 

vestir-se em montanha

Camada exterior: vale cada centavo pago!

A terceira camada, a mais exterior, é a que está em contacto com os elementos. É aqui que se tem que gastar algum dinheiro. O oleado da loja de ferragens serve para passear o cão mas não têm lugar na montanha. Estas peças da nossa indumentária são as mais importantes pois constituem a principal barreira face aos elementos. Têm que ser impermeáveis e transpiráveis e é precisamente isto que as distingue de todo o tipo de ponchos, oleados e plásticos: deixam escapar a transpiração e impedem o vento, a chuva, a neve e o granizo de entrar. Para conseguir isto, utilizam uma membrana microporosa sendo o Gore-Tex a mais conhecida.Estas membranas contêm poros com uma dimensão milhares de vezes inferior a uma gota de água mas suficientemente grandes para se deixarem atravessar pelo vapor de água. Ao adquirir uma peça deste tipo temos que verificar se as costuras estão devidamente seladas (termo-seladas) pois é por aqui que a água entra em primeiro lugar.
O sistema da cebola, com as suas múltiplas combinações de espessuras e tecidos, é utilizado actualmente em inúmeras actividades de montanha, desde o pedestrianismo até ao alpinismo, em maciços de toda a Europa. O frio extremo dos Himalayas e dos pólos requer uma abordagem diferente que se encontra fora do âmbito desta web.
Boas aventuras!

Proximamente: Como vestir-se em montanha – as botas!

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2 comments to Como vestir-se em montanha: teoria da cebola