Técnica e Material

Progressão em vias ferrata

Já que estamos numa de ferratas, pareceu-me importante escrever um artigo sobre

Via ferrata Portugal

o modo como se efectua a progressão em segurança numa via ferrata. Comecemos pelas definições. Uma via ferrata (do italiano, caminho de ferro) é um itinerário preparado, normalmente nas paredes rochosas das montanhas, com escadas, pontes, cavilhas, agrafos, …, de forma a facilitar a progressão e proporcionar alguma segurança a quem os percorre. Apesar de algumas fontes situarem a sua origem na Itália, no maciço dos Dolomites no final do século dezanove, outras advogam o seu começo na Áustria. A Suíça, a França, Andorra e agora também a Espanha instalaram já uma grande quantidade de vias ferrata e estas são um atractivo turístico importante devido ao crescente número de pessoas que anseiam por uma aproximação ao mundo vertical, mas não querem ou desejam aprender as técnicas relativamente complexas da escalada e aceitar o grau de compromisso que esta implica, sobretudo em alta montanha. Aqui radica, desde há muito, um conflito entre os “verdadeiros escaladores” e os “outros”.

Penso que a montanha tem espaço para todos  mas as ferratas devem continuar confinadas às paredes sem interesse para a escalada ou o alpinismo. Não gostaria de ver uma ferrata no Naranjo de Bulnes, no Cervino ou no Eiger. Mas vamos ao que interessa verdadeiramente e comecemos pelo material. Para progredir com segurança nestes itinerários precisamos de material específico:

Ferrata equipamento

Equipado para a acção

obrigatório:

  • sistema dissipador para ferratas
  • capacete homologado de escalada ou alpinismo
  • arnês
  • luvas

muito aconselhado:

  • corda
  • fitas e cordeletes
  • conectores (mosquetões) de segurança
  • descensor/assegurador

útil:

  • mochila de ataque
  • frontal
  • roupa de abrigo
  • alimentos e água
  • Crampons e piolet (se a via é de alta montanha)

 

O arnês

Ferrata arnes

O arnês

O mais usual é o arnês do tipo cadeirinha, embora alguma literatura aconselhe que se complemente com um arnês peitoral. As crianças devem usar um arnês integral. Existem infinidade de modelos de várias marcas e preços. Adquiram um, de qualquer marca conhecida,  e devidamente homologado, e que seja cómodo (normalmente os mais cómodos são os mais acolchoados).

O dissipador

Ferrata set

O dissipador

O dissipador é a peça mais importante de todo o sistema. Em caso de acidente, os factores de queda que se geram numa via ferrata são enormes, mesmo em quedas muito curtas. Estamos a falar de valores de ordem 4, 5 ou 6. Se considerarmos que o maior factor que se pode gerar na escalada é de ordem 2, e este é extremamente perigoso pela força de choque que transmite, acho que dá para perceber que ninguém minimamente honesto e responsável faz uma ferrata sem um sistema dissipador de energia. Estes sets são constituídos por mosquetões  do tipo K (klettersteig), cabos ou fitas de ancoragem e um sistema que, em caso de queda, dissipa a enorme energia criada, absorvendo o impacto através de fricção em placas de dissipação ou  descosendo-se progressivamente no caso das fitas cosidas, quando submetidas a cargas com determinada intensidade. Neste momento, no mercado, existem dois sistemas: tipo V e tipo Y. Os primeiros (tipo V) já estão ultrapassados e são desaconselhados (1 conector à linha de vida), e portanto vou-me centrar nos segundos (tipo Y) com fita dissipadora ou placa (dois conectores à linha de vida). A vantagem destes é ter permanentemente conectados, excepto no momento da transição entre secções, dois mosquetões à linha de vida. Este facto torna-os mais seguros do que os primeiros, cuja principal característica é ter conectado, de forma alternada, apenas um mosquetão, condição necessária ao correcto funcionamento do dispositivo. Acrescento ainda que, em caso de queda, o sistema fica inoperacional para os de fita cosida (adeus dinheirinho!!!)  e os de placa carecem de reajuste, o que nem sempre é fácil de fazer. Pessoalmente, eu prefiro os de fita cosida do tipo Y, pois são simples de operar, duradouros, práticos e seguros.

O capacete

Capacete escalada

O capacete

 

Deve ser de escalada ou alpinismo e homologado.  O das obras ou o da bicicleta não serve. O capacete protege a cabeça do praticante em caso de queda e de precipitação de pedras ou de máquinas fotográficas deixadas cair pelo pessoal que está por cima de nós 🙂

Os capacetes hologados de escalada e alpinismo ostentam o selo CE/UIAA (Conformité EuropéenneUnion Internationale des Associations d’Alpinisme )

 

 

As luvas

Luvas para ferrata

As luvas

As mãos vão sofrer. São ferros, cabos de aço, correntes, cavilhas,… às vezes enferrujados e com farpas. Para não perder a sensibilidade ao trabalhar com conectores e outros objectos, eu uso umas luvas que expõem a ponta dos dedos, e só a ponta dos dedos. As de meio dedo podem ser dolorosas. Há quem use luvas integrais, mas pelo motivo exponho acima, não é o meu caso.

Corda, cordeletes, fitas e mosquetões

Corda para ferrata

Cordas, fitas e cordeletes

Apesar de não ser obrigatório, este material e o respectivo conhecimento para o usar é muito útil em montanha, e as vias ferrata não fogem a esta lógica. Muito pelo contrário, quanto os itinerários se tornam muito difíceis em termos atléticos ou psicológicos ou a qualidade das peças de progressão ou sistemas de asseguramento é duvidosa, nada melhor do que uma corda dinâmica de escalada e progredir montando reuniões e instalando pontos de seguro intermédios, progredindo-se em ensamble nas secções menos comprometidas. É a forma mais segura e é especialmente adequada quando realizamos estas actividades com companheiros menos habituados a estas andanças, sendo obrigatória a sua utilização com crianças, como sistema complementar ao dissipador.  Pessoalmente, uso duas cordas duplas (meia corda) de 30 metros. Algumas ferratas contemplam a realização de rapel, pelo que a utilização de uma corda com o comprimento adequado é necessária. É especialmente útil a sua utilização para situações de emergência e para abandonar a via em caso de chuva ou trovoada. Uma ferrata é um para-raios gigante. Nenhum de nós vai querer estar numa num dia de trovoada.

Descensor/assegurador

petzl reverso

3 em 1 – excelente!

O descensor/assegurador é um sistema que provoca fricção na corda para poder realizar o rapel ou assegurar um companheiro. Existem no mercado de vários tipos e marcas (oitos, cestas, placas,…). Eu uso um único aparelho, de uma conhecida marca, que tem três funções : assegurador, descensor e placa auto-bloqueante e só pesa 59 gramas. Dont leave home without it!!

Convém também levar uma mochila pequena (30 litros) com comida, água, roupa de abrigo, telemóvel,  frontal, manta térmica e, se estivermos em alta montanha, crampons e piolet. Deveremos utilizar uma roupa cómoda e calçado de montanha, com sola semi-rígida, salvo em ferratas que carecem de pés de gato, mas se fosse este o caso, não estaria a ler este artigo.

 

A progressão propriamente dita

A progressão faz-se utilizando as peças instaladas para o efeito: agrafos, cavilhas, escadas, correntes,

ferrata_agrafos e linha de vida

Agrafos e linha de vida

pontes, presas artificiais e a própria rocha. Normalmente, e salvo indicação em contrário, os itinerários são feitos no sentido ascendente (consultar a ficha técnica da ferrata).

Asseguramento

O asseguramento é realizado de forma individual (sem corda) conectando os mosquetões do dissipador ao cabo de aço instalado e que marca, de algum modo, o caminho a seguir. Nas transições entre as secções do cabo, passa-se um mosquetão de cada vez, de modo a que, pelo menos um deles, sempre estará conectado à linha de vida (cabo de aço). Apesar de se tratar de um sistema simples, um erro apenas pode ser fatal. Se a actividade for feita com crianças, com pessoas pouco habituadas, ou se o grau de dificuldade da via for muito elevado, então complementa-se o sistema de auto-asseguramento com técnicas de escalada (progressão encordados em ensamble com pontos de seguro intermédios ou através da instalação de reuniões) como  foi acima descrito.

aseeguramento tradicional

Asseguramento com corda, dissipadores, e …

seguro intermedio

com seguros intermédios e reuniões

Precauções

As ferratas são muito perigosas com trovoada… MUITO MESMO!!!

Conecte os mosquetões com os gatilhos virados para si e não para a rocha.

ferrata_set

Gatilhos afastados da parede

Nunca entre numa secção onde já esteja outro ferratista, especialmente se esta for vertical ou oblíqua. A queda do primeiro irá arrastá-lo a si. Lembre-se que, numa queda, o ferratista vai ficar 2 a 3 metros por baixo da última ancoragem. Mantenha a distância e evite aglomerações. Sair cedo costuma ser uma boa ideia.

Não faça ultrapassagens a não ser que existam locais habilitados para o efeito (vários mortos).

Mova-se com precaução e sempre em equilíbrio. Mantenha sempre três pontos de apoio na parede. Utilize a força das pernas para a impulsão e os braços para se estabilizar (… pois, nem sempre é possível …)

Evite arremessar pedras ou outros objectos. Se tal acontecer dê a voz de alarme gritando “PEDRA!” (piedra, rock, …)

Se a linha de vida, nas secções verticais, não apresentar laço de retenção (ver imagens), então devemos progredir encordados instalando reuniões. Isto deve-se ao facto de o risco de rotura dos mosquetões por impacto na argola de ancoragem, em caso de queda, ser muito elevado.

Consulte a ficha técnica da via ferrata. Esta informação pode ser encontrada em guias e muitas vezes em painéis informativos no inicio dos itinerários.

Linha de  vida - ferrata

Sem laço de retenção – risco de rotura dos mosquetões

Ancoragem ferrata

Com laço de retenção

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Considerações finais

Rapel em ferrata

Saída da via em rapel

Progredir numa via ferrata não é fazer escalada. Apesar do grau de compromisso ser substancialmente inferior, não está isento de riscos. Para todos os efeitos, o praticante evolui por zonas verticais que por vezes são vertiginosas. Requer habituação ao mundo vertical. Conhecer as técnicas específicas da escalada (manobras com cordas, asseguramento e rapel) é estabelecer uma margem de segurança significativa, sobretudo em vias nos Alpes e nos Pirinéus.

A leitura deste artigo não o habilita a realizar esta actividade de forma autónoma e segura. Existem inúmeras situações onde só a experiência, um companheiro experimentado, um guia credenciado ou um curso de formação podem ensiná-lo a ultrapassar.

Todas os aspectos relacionados com segurança e risco, aplicam-se a todas as ferratas, mesmo as mais acessíveis ou de iniciação.

 

Numa via ferrata não se pode cair. Mesmo que o sistema de retenção funcione na perfeição basta olhar para a quantidade de ferro que ali está para perceber que vai ser, no mínimo, doloroso.

Nota de segurança: não una o dissipador ao arnês com um mosquetão (dois mortos em França por este motivo).

Nas ferratas bem desenhadas, a passagem mais difícil costuma ser logo no início da via. Assim, já podemos ter uma ideia do que nos espera. Mas isto não é regra.

Boas aventuras, mas com juízo!!

Até à próxima!
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3 comments to Progressão em vias ferrata

  • “Eu uso um único aparelho, de uma conhecida marca, que tem três funções : assegurador, descensor e placa auto-bloqueante e só pesa 59 gramas.” Que aparelho é este mesmo?

  • O Reverso 4 da Petzl. Vê o video aqui à direita. É sobre o Reverso 3 mas cuja única diferença relativamente ao 4 é ser um pouco mais pesado.

    Bem-vindo a este espaço e boas aventuras!

  • PEDRO RATO

    Atenção ao uso de dissipadores com crianças com menos de 40/50Kg de peso! A maior parte dos dissipadores não estão pensados para utilizadores abaixo de 50 quilos, e neste caso o dissipador não abre a não dissipa a força de choque! Nestes casos eu aconselho o uso de placas dissipadoras como a da marca Kong.