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Tipologia e contextualização das actividades de montanha

Montanhismo, alpinismo, trekking, escalada, pedestrianismo… mas afinal do que é que estamos a falar? O mundo experimentou na década de 80 uma grande evolução, quer ao nível das técnicas, quer ao nível dos materiais de montanha. A este facto junta-se uma “democratização” nos acessos aos grandes maciços, com melhores vias de comunicação e meios de transporte e um incremento  da consciência  ambiental. Estes factores e uma necessidade crescente de evadir-ser de um estilo de vida

desportos de montanha

“carente de alguma adrenalina”, proporcionaram o aparecimento de diversas actividades físicas na montanha. Há uns anos atrás, todos eram montanhistas, hoje em dia, e apesar de aos olhos de um leigo isto ser mais ou menos assim, as actividades de montanha mantêm na actualidade escassas relações entre si. Basta olhar para a maneira como vão vestidos para entender isto.

Montanhismo é um termo genérico para definir um conjunto de actividades de montanha. Neste, não estão incluidos o parapente, o rafting, o BTT, …, mas sim o canyoning por utilizar  manobras com cordas.

Apesar de hoje em dia estar conotado com uma prática de baixo nível, escassamente comprometida, o termo montanhismo não se esgota na caminhada. A via normal do Everest não diz nada a um escalador ou mesmo a um alpinista extremo. Há quem diga que esta via é um trekking- basta andar e trepar um pouco– e no entanto é um grande feito para qualquer um. Um praticante de trekking vai muito para lá dos caminhos balizados. Talvez não chegue a usar uns pés de gato, mas sobe ao cimo de montanhas, dorme no monte, usa crampons, e deve conhecer técnicas e manobras com cordas como o asseguramento e o rapel.

Esta página tem como objectivo disponibilizar um espaço de discussão, de troca de ideias, projectos e experiências acerca do montanhismo em geral, centrado essencialmente no acto de caminhar mas não excluindo a escalada ou o alpinismo. Assim, e estruturando a lista de actividades   numa escala crescente de compromisso, temos:

Pedestrianismo– é a opção mais tranquila e menos comprometida de todas. O pedestrianista (percurso pedestre) costuma estar nos caminhos. Utiliza uma sinalética específica que marca inúmeros percursos de montanha mas não só. Na Europa, e mais concretamente na península Ibérica, contam-se por milhares os quilómetros marcados. Encontramos desde caminhos mais  “montanheiros”, como por exemplo o GR11, que atravessa os Pirinéus do Atlântico até ao Mediterrâneo, até a outros com raízes mais culturais como é exemplo o “Caminho de Santiago”.

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Desfiladeiro dos Arrudos no Parque de Redes

Excursionismo – estou a adaptar o termo do espanhol. Muitas vezes a nossa actividade consiste em sair para a montanha, abandonar os caminhos e eventualmente alcançar algum cume, estando de regresso para o jantar ou o almoço do dia seguinte.

Trekking – quando saímos dos caminhos e dormimos no monte, normalmente durante mais de dois dias. São trekkings alguns percursos nos Alpes, Pirinéus, Picos de Europa,… mas o termo está fortemente associado aos grandes percursos nas grandes cordilheiras como os Himalayas, os Andes ou na Patagónia. Um praticante de trekking, deve possuir um leque de conhecimentos muito alargado: meteorologia, sobrevivência, orientação, …, e deve estar bem treinado e preparado fisicamente. Se um trek for muito “técnico”, em terrenos agrestes, nevados e verticais,  então entramos também nos domínios do alpinismo. O próprio João Garcia relata, no seu primeiro livro, as dificuldades de um trek de aproximação que realizou aquando da sua subida ao Everest.

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Escalada

Escalada (rocha) –  o mundo da rocha vertical. Esta actividade subdivide-se e nem todos os ramos estão associados à montanha. A escalada desportiva em “rocódromo” não é uma actividade de montanha pois é feita muitas vezes em ambiente urbano controlado e, frequentemente, dentro de pavilhões onde factores como a meteorologia, a logística e o grau de compromisso não são decisivos. Uma escalada dita “clássica” de um cume, já é uma actividade de montanha com alto grau de compromisso, apesar do carácter desportivo de algumas vias como por exemplo no Naranjo de Bulnes (Picos de Europa).

Vias ferrata – uma actividade a cavalo entre o trekking e a escalada. Muitas vezes são consideradas como a porta de entrada ao mundo vertical. Dispensam um conhecimento profundo de manobras com cordas. Uma via ferrata é um percurso  que se caracteriza pela existência de uma linha de vida, que é um cabo de aço solidamente ancorado à rocha, ao qual o ferratista se liga através de um sistema específico individual de segurança, com grande capacidade de dissipação de energia. O objectivo do sistema é suster uma eventual queda do praticante sem lhe provocar lesões incapacitantes ou mortais. A maioria das vias ferrata têm instalados elementos que facilitam a progressão: agrafos, cavilhas, correntes, pontes, …, mas nem todas. Não confundir com troços equipados. Nos Alpes é comum encontrarem-se estruturas parecidas em algumas montanhas. Cuidado que não são vias ferrata, simplesmente estão ali para facilitar e/ou melhorar a segurança em algumas zonas.

Canyoning -progressão através  de um rio ultrapassando obstáculos verticais e anfíbios. Recorre a variadas técnicas incluindo algumas de escalada e no âmbito das manobras com cordas.

Ascensões– subir um cume. A sua realização pode ser estival  ou invernal e envolver uma maior

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Ascensão em somiedo

ou menor logística e preparação.

Escalada em gelo –  trata-se de escalar cascatas de gelo utilizando crampons e piolets característicos. É uma actividade muito específica e técnica.

Ski de travessia – progressão em montanha com esquis.

Alpinismo – utilizado muitas vezes como sinónimo de montanhismo, com a sua origem nos Alpes, é a arte de subir montanhas. Implica um elevadíssimo grau de compromisso. A exigência física e psicológica são imensas e desenrola-se sempre em ambiente hostil. Neve, gelo, rocha, altitude, verticalidade e risco, são as palavras que melhor o definem . O piolet é o seu ícone. Os que sobrevivem aos grandes desafios alpinos são heróis nos tempos modernos.

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Piolet e crampons

 

Qual é a vossa especialidade? São montanhistas ou não gostam que vos classifiquem como tal? Caminhar é um meio ou um fim em si mesmo? Partilhem as vossas ideias.

 

Até à próxima!

1 comment to Tipologia e contextualização das actividades de montanha

  • Miguel

    Claro que o grau de risco ou compromisso é também, e em grande parte, função da preparação de cada um. Quer preparação física, técnica ou de equipamento.

    Ainda esta semana soube em primeira mão de um caso que só parece cómico porque não teve consequências graves. Um casal de turistas de visita à Serra do Soajo (PN da Peneda-Gerês, Arcos de Valdevez) consegui perder-se e extraviar uma criança… num percurso marcado de 3km à volta do centro de interpretação. Foram parar a Adrão e, em pânico, ligaram para a polícia para tentar localizar a criança. Acham isto normal?

    A montanha está cheia de gente, a maior parte dela sem qualquer tipo de preparação e, o que é mais grave, sem a mínima ideia dos riscos (grandes ou pequenos) que ela alberga.